As heresias em relação a Jesus Cristo

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A doutrina da Pessoa de Jesus Cristo é crucial para a fé cristã. Na vida da Igreja Primitiva surgiram ensinamentos que procuraram negar a Cristo tanto no aspecto da Sua humanidade como da divindade.

O apostolo João deixou bem explicito quando afirma que todo espírito que não confessa a Jesus não vem de Deus (1Jo 4.3). Precisamos saber quais são os falsos ensinos para não sermos enganados aceitando esses erros doutrinários e estarmos prontos a refutá-los.

Apontarei alguns grupos hereges e seus respectivos ensinamentos com relação a humanidade e a divindade de Jesus.


1- Em relação à humanidade de Jesus


A Bíblia registra que quando Jesus esteve aqui no mundo foi plenamente humano, homem (Sl 121.4.5; Mt 1.20; 3.16; 4.2; 9.36; 21.12,13; 26.12,37,38; Lc 1.33-35; 2.41-52; 10.21; 23.46; Mc 11.13; 13.5; 15.19; Jo 1.1,2,14; 4.6,7,9; 13.23; Rm 1.3; 1Co 15.3; Hb 4.15). Mas no decorrer da história da Igreja alguns negaram esse fato. O teólogo Héber de Campos afirma que ``...a questão da plenitude da humanidade do Redentor foi, na história da igreja, e ainda continua sendo, um problema teológico, pois tem gerado controvérsias no que diz respeito ao modo como as coisas sobrenaturais se deram.´´ (CAMPOS, 2003, p. 347).

Essa dificuldade é em relação de como se deu a encarnação do Verbo, pois muitos não creem que Deus se humanizou. E, um dos movimentos heréticos mais antigos é:



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Docetismo: do gr. doketai que significa ``aparência´´ e ``semelhança´´. Uma vertente do gnosticismo. Afirmavam que Jesus verdadeiramente não possuiu um corpo, mas apenas tinha uma aparência de um homem. Héber (2003, p. 348) adverte que ``Realmente, o docetismo é um perigo em que alguns crentes desatentos acabarão caindo...´´, temos que ter atenção nos falsos ensinos deste grupo. A humanidade de Jesus é essencial para a nossa redenção.
Os docéticos possuem a dificuldade em aceitar a real união das duas naturezas do Salvador Jesus. 

1.1- Alguns docetistas ao longo da história

Docetismo do gnosticismo: Esse movimento foi combatido no final da era da Igreja Primitiva pelo apóstolo João (1Jo 1.1; 4.2; 5.6-8; 2Jo 7).

Eles abraçaram o dualismo grego – a matéria é má e oposta ao espírito. O corpo possui conotações más, desta forma, Jesus não poderia de forma alguma possuir um corpo físico. Eles criam que Cristo era uma espécie de fantasma. Para eles Cristo desceu a terra para trazer a centelha divina – gnosis,para serem libertos da matéria e serem salvos.

Portanto,``Os falsos mestres do gnosticismo do primeiro século não poderiam admitir a corporeidade, ou, melhor, a materialidade do corpo de Jesus, em virtude do seu comprometimento com a filosofia grega que ensinava que a matéria era má.´´ (CAMPOS, 2003, p. 352).

Docetismo marcionita: Márcion foi um herege no segundo século. Não foi diretamente um docetista, mas em relação ao seu pensamento cristológico, a tendência é docética. Ele recortou livros e trechos bíblicos da Bíblia ao seu bel prazer. Por exemplo, ele não aceita o que está registrado em Gl 4.4, acreditava que ``...alguns judeus falsificadores teriam...´´ (CAMPOS, 2003, p. 357) adicionados esses textos.

Para Márcion Jesus não possuía um corpo, era uma espécie de fantasma, para isso, ele citava Lucas 4.30 que ``prova´´ - interpretava assim, que Jesus era um fantasma.


 Docetismo de PráxeasPráxeas (200 d.C.) foi um líder do monarquianismo patripassiano um grupo que não aceitava nem o termo e muito menos  o ensino acerca da Trindade. No pensamento deste grupo em relação a humanidade de Jesus, não havia nenhuma diferença entre o Pai e Cristo. Para eles o Pai veio ao mundo, tornou-se visível, eterno, nasceu, sofreu e morreu na cruz.


Eles dão ênfase no divino e ``Para preservar a verdadeira divindade de Cristo, os patripassianos identificaram-no com o Pai e acabaram crucificando o Pai.´´ (CAMPOS, 2003, p. 358). Os patripassianos acreditavam que o Pai se humanizou, mas sem uma alma racional. Um ensino totalmente contraditório das Sagradas Escrituras.

Docetismo de Sabélio: No século III deparamos-nos com a atuação dos pensamentos do principal líder dos modalistas, Sabélio. Esse grupo, assim como os outros, também possui influencia docética. São chamados de modalistas, pois criam na atuação do Pai, Filho e Espírito Santo como sendo unitário, uma única pessoa.

Para eles, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, não são pessoas distintas, são modos ou manifestações de revelação de Deus. Não criam em Cristo com corpo humanizado, somente divino, ou seja, Cristo era a mesma pessoa do Pai, apenas manifestado num tempo diferente.

Docetismo de Apolinário: No século IV, temos o bispo Apolinário. Segundo Héber (2003, p. 360) ele era um docético em sua cristologia. Ele cria que Cristo era Deus e homem. Porém, elaborou uma tese tripartida da humanidade de Jesus.

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Para ele, Jesus tinha tanto um corpo (somahumano como uma alma (psyque) real, mas não um espírito (pneuma) humano. Haja vista, Apolinário defendia o conceito tricotomista antropológico, o pneuma humano de Jesus foi substituído pelo Logos divino. Jesus não possuía uma mente humana racional, pois para Apolinário a mente humana era corrompida.

Ele ensina que o Logos desalojou a alma racional, Cristo então passou a ter uma mente divina. Apolinário não cria na totalidade humana de Jesus, apesar de afirmar que era totalmente divino.

Docetismo de Menno Simons: O docetismo não morreu nos primórdios da era cristã, sempre aparece alguém para ressuscitá-lo. E neste caso aparece Menno Simons (séc XVI) – do movimento menonita, que influenciado por Melchior Hofmann, afirmou que Cristo divino desceu do céu como um raio de sol para o ventre de Maria, sem possuir a carne pecaminosa.

Simons acreditava que a natureza humana de Jesus veio do céu e depois foi ``...concebido em Maria, mas não de Maria.´´ (CAMPOS, 2003, p. 364) - Grifo meu. Para ele, como Jesus foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu de Maria. Contudo, Ele não possuiu nada de Maria. Desta forma, Cristo não pode ser considerado verdadeiramente humano, pois veio do céu. 

Docetismo de Rudolf Bultmann: Teólogo proeminente da era neo-ortodoxia (séc. XVIII). Em pleno fervor do liberalismo teológico, Bultmann separa o Jesus de Nazaré do Cristo da fé. Ensinou que o Novo Testamento é recheado de estórias mitológicas e que ``A pregação do Novo Testamento anuncia a Jesus Cristo, não só sua pregação acerca do reino de Deus, senão à sua pessoa, que foi mitologizada desde o início do cristianismo primitivo.´´ (BULTIMANN, 2008, p. 14).

Por querer fazer separação de Jesus de Nazaré do Cristo da fé, ele ainda afirma que a concepção de Jesus pelo Espírito Santo em uma virgem significa que ``Tais concepções são manifestamente mitológicas, posto que se  encontravam muito difundidas nas mitologias de judeus e gentios, e depois foram transportadas à pessoa de  Jesus.´´ (BULTIMANN, 2008, p. 15) - Grifo meu.

Sem sombra de dúvida o senhor Bultmann é um docético quando verbalizou esses pensamentos acerca da existência e humanidade do nosso Salvador. De forma alguma os ensinamentos bíblicos deve se adequar ou se encaixar conforme época ou a realidade existencial do homem.

Docetismo contemporâneo: Obviamente não iremos encontrar um grupo docético específico dentro das Igrejas, mas há muito docetismo oculto em ensinos, pregações e na vida individual de alguns crentes. Todavia, cristãos zelosos amam a Jesus, porém, para eles Cristo é divino. Na ignorância, esses crentes acabam prejudicando o conceito da plena humanidade do Senhor Jesus.

Temos que entender o seguinte, a plena humanidade de Cristo é o meio pelo qual Deus realizou a nossa salvação. Negar isso, é negar o plano da salvação estabelecida por Deus. O docetismo foi combatido nos primórdios do cristianismo pelos apóstolos e também nos respectivos:

   - Concílios: em Nicéia (325 d.C.) e em Calcedônia (451 d.C.).

   - Confissões reformadas: Confissão Belga (1561) e Confissão Helvética (1566).

Segue o credo de Nicéia que diz: 

``Cremos em um só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de luz, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu, se encarnou e se fez homem, e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente deve vir para julgar os vivos e os mortos.´´ (CAMPOS, 2008, p. 370) - Grifo meu.

Que ficamos atentos aos ensinos heréticos do docetismo que nega a plena humanidade de Jesus Cristo, a Bíblia declara que todo o que nega que Jesus era humano não procede de Deus (1Jo 4.1-3). No próximo artigo abordarei das heresias em relação a divindade de Jesus. Deus os abençoe!!



REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BULTIMANN, Rudolf. Jesus Cristo e Mitologia. 4ª edição. São Paulo: Fonte Editorial, 2008.


CAMPOS, Héber Carlos de. As duas naturezas do Redentor. 1ª edição. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003.


MYATT, Alan. FERREIRA, Franklin. Teologia Sistemática. A doutrina da Pessoa e Obra de Cristo. 2002.

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